GRÃO – Curta premiado no festival de Gramado

Por Eliane Barreto*

Me chamo Eliane Barreto, sou uma fazedora de cultura em Tramandaí. No final de semana passado vivi muitas experiências junto com a maior parte da equipe de filmagem, atuação, direção, som…todos amigos…achei riquíssimo poder participar num festival de tamanha envergadura como o Festival de Gramado, assistir ao nosso filme Procura-se  Ator, de Laura Lautert e Airton Tomazzoni, e aos outros curtas. Pensar na maneira como foram construídos e a qualidade que alcançaram e gostei demais de estar lá abrindo caminho para novas produções no litoral norte, foi uma experiência realmente incrível!!!

Foram muitos aprendizados, alguns técnicos, outros emocionais. Foi muito interessante perceber os fenômenos  construídos dentro de cada obra.

Mas eu gostaria de falar um pouco sobre o filme vencedor da Mostra Competitiva de Curtas Gaúchos de 2026, Grão. Esse é um filme que realmente causa impacto, provoca um barulho grande e acredito que cumpre seu propósito. Nada ali foi por acaso. Achei merecidos os prêmios que recebeu, porque é um grupo que trabalha com seriedade há algum tempo e trouxe à tona um tema necessário, tirando do apagamento aquilo que a sociedade costuma varrer para debaixo do tapete. Muitas vezes não se considera o que está acontecendo com a masculinidade desse jovem, oprimido pelo empobrecimento financeiro da população e a exploração desta condição pelos detentores dos meios de produção de riquezas. Quais são as reais consequências dessa realidade dura que atravessam as cidades portuárias? Para mim, não surpreendeu, já estive em várias regiões de porto, esta é a realidade.

No entanto, quero chamar a atenção para algo: senti uma grande estranheza em relação à estética do filme, porque não é uma estética que dialoga com o que eu trabalhei em audiovisual, que é muito pouco ainda…também não tenho experiência suficiente para julgar, me reconheço como espectadora. Venho das artes visuais e já trabalhei muito dando forma a aspectos sombrios e duros da condição humana de várias formas e linguagens. Poucos entendem…acho que não devemos perder o olhar curioso, crítico, inquieto do aprendiz. Quando alguém me procura para se desenvolver na arte, tento deixá-la muito livre. Frequentemente, essas pessoas trazem estéticas completamente diferentes da minha. Com temas, cores, técnicas e gêneros que não costumo usar. Mas, como orientadora, não cabe a mim dizer o que está certo ou errado, e sim ajudar aquela pessoa a encontrar a própria verdade, seja buscando serenidade, técnica, protesto, denúncia  ou crítica. Eu mesma já trabalhei muito com arte de protesto e acho isso totalmente válido. Não é porque algo me deixa desconfortável que vale menos, ao contrário, atingiu seu objetivo! O papel das artes é frequentemente deslocar seu público da zona de conforto. Nesse sentido, acho que podemos refletir: o que o Grão trouxe? Que aspectos da construção contribuíram para esse destaque? Que intenções percorrem esse trabalho e foram ricamente  alcançadas?

Bora pensar? Onde vive esse jovem, que precisa catar grãos que caem dos caminhões para sobreviver? Onde ele  encontra algum prazer ou autoestima? Uma pessoa tão massacrada pelo sistema econômico que seus valores se reduzem aquele carro, aquela mulher imaginária, à pornografia, aquela música(refiro-me à letra), aquela violência? O que será isso, gente? O que esse roteiro está nos mostrando? Ele nos faz parar, enxergar e ouvir isto…que realidade apresenta? Vamos botar os pés no chão…Tentar melhorar? Onde? Interferir ou deixar passar? Ou simplesmente apagar essas populações, como se não existissem?

Parabéns a Grão, aos diretores, atores e a toda a equipe. Acho que têm que continuar, têm que fazer mais cinema! Parabéns também a cada um que está tentando, com muuuuito empenho e beleza fazer cinema no litoral norte do Rio Grande do Sul. Parabéns, Manjericão!!! Parabéns, Procura-se Ator!!!

*Eliane Barreto é artista visual. Arteterapeuta especialista formada no Instituto da Família de Porto Alegre (INFAPA) e também bacharel em Desenho e Plástica pela UFSM, com mais de 25 anos de trajetória. Desenvolve pesquisas visuais em pintura, desenho, artes têxteis, curadoria de arte e desde 2025 iniciou no audiovisual através do Cine Arte organizado pela Território Diverso na Casa Colarte. Reside em Tramandaí desde 2015, onde desenvolve sua atuação como agente cultural e membro do Conselho Municipal de Cultura. Membro fundadora do ColArte, é também idealizadora da Garagem Criativa, espaço de produção, experimentação e circulação cultural, e da Biblioteca Comunitária Vó Amelinha, dedicada à democratização da leitura e à convivência comunitária.

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