Grupo E: Alemanha, Costa do Marfim, Curaçao e Equador
Estreante em Copas do Mundo da FIFA, Curaçao talvez tenha a história mais encantadora dentre todas as 48 seleções que se classificaram para a Copa sediada por Canadá, Estados Unidos e México. Para início de conversa, trata-se de uma ilha situada no Caribe, a 65 km da costa venezuelana, que possui pouco mais de 150 mil habitantes e uma área territorial de 443 km² – o que faz dela a menor participante em Copas tanto em termos de território quanto de população. O idioma predominantemente falado é o papiamento, uma língua crioula com fortes raízes no português, além de influências do espanhol, holandês e idiomas de África. Importante dizer que Curaçao não é um Estado-nação soberano, mas um país constituinte autônomo que integra o Reino dos Países Baixos (conhecido no Brasil como Holanda).
A primeira vez que Curaçao disputou as Eliminatórias da Concacaf foi há pouco tempo, visando a edição que aconteceria no Brasil em 2014. De lá para cá, a evolução curaçauense foi gigantesca e rápida, tanto é que, passado pouco mais de uma década, A Onda Azul, apelido dado à seleção local, conseguiu uma vaga ao superar Bermudas, Trinidad e Tobago e Jamaica – esta última, diga-se de passagem, ocorreu num heroico e histórico jogo fora de casa, em Kingston, numa empate sem gols.
Coube ao experiente treinador holandês Dick Advocaat, de 78 anos, o papel de liderar Curaçao rumo à conquista da vaga. Para isso, ele contou com jogadores jovens como Livano Comenencia e Tahith Chong, pertencentes a uma geração de atletas nascidos nos Países Baixos, mas que, devido às ligações de seus antepassados com a ilha caribenha, possuíam dupla nacionalidade e, assim, estavam aptos a defender as cores curaçauenses.

Quando o assunto é o cinema, muitas pessoas talvez pensem que Curaçao é um imenso vácuo ou terra devastada. Todavia, a ilha possui uma produção cinematográfica própria, impulsionada em grande parte por sua ligação com os Países Baixos. O cinema curaçauense destaca-se por abordar a herança caribenha, o colonialismo e os conflitos culturais derivados da dominação holandesa.
Dirigido pelo cineasta Eché Janga, nascido em Curaçao, Buladó é o representante curaçauense na Copa do Mundo de Cinema. Vencedor do Bezerro de Ouro (Gouden Kalf, em neerlandês), o prêmio máximo do cinema holandês, o filme foi selecionado pelo comitê dos Países Baixos para concorrer ao Oscar em 2020. Nele acompanhamos Kenza, uma garota de personalidade forte, que vive com o pai, Ouira, e o avô, Weljo, em um ferro-velho no interior de Curaçao. Os dois representam opostos que não se atraem: Ouira é um policial determinado e racional, tipicamente ocidental, enquanto Weljo se identifica com os habitantes nativos e a espiritualidade da ilha. À medida que Weljo deseja preparar sua passagem para o mundo dos espíritos, a tensão entre os dois homens aumenta, e Kenza, aos 11 anos, busca seu próprio caminho entre esses dois extremos.
Buladó não é apenas um coming of age (isto é, um filme de amadurecimento), mas se apresenta como uma espécie de tratado cosmológico sobre a identidade da ilha. O diretor utiliza os mitos locais e a herança espiritual africana para desafiar a lógica linear e colonial que historicamente silenciou Curaçao. Quando o filme tangencia o sobrenatural e o invisível, ele está validando uma forma de conhecimento e de existência que resistiu à colonização holandesa. O filme também forçou a metrópole europeia a reconhecer a soberania narrativa da ilha. O uso do papiamento como idioma central da narrativa acaba sendo um ato político de afirmação linguística e cultural.


****
DEIXE ABAIXO SEU COMENTÁRIO SOBRE O TEXTO.
PARTICIPE DE CONVERSAS SOBRE CINEMA E CULTURA NO NOSSO GRUPO DO WHATSAPP (Clique aqui)
SEGUE A GENTE NO INSTAGRAM (@temquevercinema).
Quer escrever para o TemQueVer? Entre em contato conosco através do chat de nossas redes sociais (Instagram e Facebook) ou pelo e-mail temquevercinema@gmail.com










