Carlinhos era um garoto alegre e esperto, que adorava jogar futebol com seus muitos amigos. Porém, sua maior paixão era assistir aos jogos do colorado gaúcho. E seu maior desgosto era uma coisa com a qual ele tinha que lidar todos os dias… ir à escola. Todos os dias pela manhã, era sempre a mesma coisa: sua mãe passava maus bocados tentando convencer o preguiçoso guri a sair da cama para tomar o rumo do colégio.
– Carlinhos! Acorde você já está atrasado, menino!
E assim o menino ia, chegando sempre atrasado e sonolento para sua aula. Porém não era apenas o sono que povoava seus pensamentos: como torcedor fanático do Inter, Carlinhos só pensava na grande final do Campeonato Gaúcho. Entre cálculos de matemática e mapas de geografia, sua única vontade era que o tempo passasse logo para que pudesse ir ao Beira-Rio ver seu time jogar.
Sabendo da vontade de Carlinhos de ir a esta partida, sua mãe começou a ameaçá-lo de não deixá-lo ir caso não fosse à aula. “Primeiro o dever a a lição, depois a diversão!”, pedia a sábia senhora. Mas o garoto, alegre e debochado, não dava bola às súplicas. Sorrateiramente, todas as manhãs, Carlinhos partia como se fosse à escola, mas sempre ia jogar bola com os garotos mais velhos no campinho do bairro.
E assim as coisas se seguiram. Até que certa feita, em que fugia da escola como de costume, Carlinhos encontrou sua amiga Renata, bonita menina que morava há poucas casas da sua. Sorridente, a animada vizinha lhe fez um estranho convite:
– Carlinhos! Descobri que do outro lado da rua tem uma casa abandonada… parece divertido. Estou indo pra lá agora mesmo! Você não quer vir comigo?
O menino ficou desconfiado, mas aceitou o convite. Afinal, tudo parecia mais divertido do que ir à aula. Além do mais, estava muito interessado em conhecer esta tal casa que muitos diziam ser mal assombrada na região. Então assim os dois foram em direção ao misterioso endereço.
Chegando lá, a casa realmente parecia de outro mundo. Toda feita de madeira velha e carcomida, com porta e janelas entreabertas, a bater com o vento frio do vento da manhã de outono. Para atingir a porta, logo os dois pequenos aventureiros perceberam que teriam que cruzar por um mato cheio de espinhos. Carlinhos achou aquilo tudo muito assustador e disse:
– Você está doida! Eu não vou me meter no meio desses espinhos! Vamos embora, Renata…
Renata, que era muito teimosa, retrucou:
– Eu vou sim! E se você não for comigo, chamarei outro garoto que não seja tão medroso como você!
Intimidado, Carlinhos dá um suspiro e resolve seguir a menina. Com alguma dificuldade e cuidado para não se machucarem, cruzaram pelas espinhentas plantas, até que encontraram uma espécie de trilha no matagal mal cuidado do jardim da velha casa. Seguindo por ela, logo conseguiram chegar à porta. Renata, destemida e intrometida, foi logo empurrando a velha porta, que se abriu com um tenebroso ranger, que mais parecia um gemido do antigo casarão. Carlinhos sentiu um arrepio, mas o pior ainda estava por vir: assim que passaram pela entrada, deram de cara com um monstro enorme! Em forma de gosma verde e com uma boca cheia de dentes, a estranha e assustadora criatura gritou com eles:
– Como ousa? Eu sou o “Coisa”! E estou aqui para aprisionar crianças que matam aula como vocês dois! Ha Ha Ha!
Renata ficou petrificada diante da monstruosa figura que babava vindo na direção dos dois. Então Carlinhos só teve tempo de pegar a mão da amiga e correr para fora da casa. Os pequenos correram e correram, arranhando-se nos espinhos e chegando finalmente à rua. Porém, ao olharem para trás, viram que o monstro seguia atrás deles! Então eles voltaram a correr, o mais rápido que conseguiam. Correram desesperadamente, até perderem o fôlego diante do muro da escola do bairro.

Então, achando que estavam livres do perigo, Carlinhos e Renata olharam mais uma vez para trás… e, com olhos arregalados, perceberam que o Coisa ainda os perseguia. Encurralados junto ao muro, o monstro gelatinoso aproximava-se, abrindo os braços e rindo, com seus enormes dentes melados quase tocando seus rostos. Então, quando viram que não tinham para onde fugir e que seriam devorados em uma só abocanhada, Carlinhos gritou:
– Socorrooooooooooooooooo!
Então, num susto, Carlinhos abriu os olhos… Todo suado e assustado, o menino acordou. Olhando ao redor, só então percebeu que esteve o tempo todo em sua cama, seguro.

Ufa… tudo não passou de um sonho! Sua mãe, que o acordava neste exato instante para ir à escola, perguntou se estava bem. Carlinhos olha para ela e vê uma grossa meleca verde em todo seu rosto, desses cremes que nossas mães e tias usam para ficarem mais bonitas. “Sim!”, ele responde, quase que às gargalhadas. E, diferente de todos os outros dias, desta vez o menino saltou da cama em um pulo, se vestiu, pegou sua mochila e não foi jogar bola com os amigos. Desta vez, Carlinhos foi direto para o colégio, jurando para si mesmo que nunca mais mataria aula nenhuma. E se comportando assim, ele logo ganhou a permissão que tanto queria para assistir à final do campeonato que seu time iria disputar. E, para a alegria dele, adivinhem quem foi o grande campeão? O colorado do seu coração.
Texto: Álvaro Nicotti
Ilustração gerada por IA











