Representatividade e inclusão social em curta do Litoral Norte gaúcho
Por Leonardo Lima – texto dedicado ao meu amigo José Iremar Morais Júnior (1976-2026), defensor da causa da pessoa com deficiência
Nota: 8,0
Representatividade é uma daquelas palavras que tomaram conta do vocabulário contemporâneo, algo que, neste caso, expressa a longa luta das minorias sociais para que sua existência enfim fosse reconhecida. Arte fundamental no estabelecimento de tropos relacionados à representação, essenciais na construção do imaginário coletivo, o cinema aos poucos vem abrindo espaços para pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, idosas etc., ainda que o protagonismo seja uma realidade distante na maioria absoluta das produções.
No que diz respeito especificamente às pessoas com deficiência (PcD), a sua representatividade real nas telas continua sendo um desafio. Muitos se lembram das atuações de Daniel Day-Lewis em Meu Pé Esquerdo (1989) ou de Al Pacino em Perfume de Mulher (1992), as quais lhe garantiram o Oscar de Melhor Ator. Ninguém contesta a excelência desses intérpretes em seus papéis; mas é válido questionar por que personagens que apresentam alguma deficiência costumam ser interpretadas por atores e atrizes sem deficiência. Filmes como Filhos do Silêncio (1986), Colegas (2012), CODA – No Ritmo do Coração (2021) e Cyrano (2021), que possuem como protagonistas PcDs de fato, infelizmente ainda são exceções na indústria cinematográfica.
O cinema independente, no entanto, tem se mostrado uma seara mais propícia em garantir representatividade a PcDs. Um bom exemplo disso é o curta-metragem Procura-se Ator, dirigido pela dupla Airton Tomazzoni e Laura Lautert. Selecionado para a Mostra Gaúcha do 54° Festival de Cinema de Gramado, o filme é uma cativante incursão ao universo das pessoas com deficiência, tanto pela perspectiva das barreiras que lhe são postas no cotidiano, inclusive por familiares, como pela ótica de suas potencialidades, geralmente subestimadas.

Procura-se Ator lida com a temática da inclusão social por meio da metalinguagem, isto é, insere o debate sobre a presença ativa de pessoas com deficiência no fazer cinematográfico recorrendo ao próprio cinema enquanto prática capaz de expressar os sentimentos mais íntimos de um jovem com deficiência quanto à sua existência no mundo. Fred (Jeferson Donatti) vivencia o cinema não apenas com a paixão cinéfila demonstrada por seu avô Santiago (Oscar de Lima), com quem vivencia aventuras quase circenses em seu caráter lúdico e improvisado, reencenando clássicos como Jornada nas Estrelas, MIB – Homens de Preto e Thelma e Louise; na verdade, para ele, o cinema se revela uma práxis fenomenológica, por meio da qual ressignifica a experiência com o seu próprio corpo (falas e movimentos) e estabelece, como consequência disso, uma relação bastante particular com o tempo e o espaço. Assim, o que é visto como limitação física por sua tia (Rita Réus), é concebido por Fred sob o viés da criatividade emancipatória.
Em seu desenvolvimento narrativo, o curta alterna momentos nos quais o público acessa esse lado mais performático do protagonista – o que inclui a cena final, um lindo tributo ao gênio Charles Chaplin –, com passagens em que ele, juntamente com a amiga e vizinha surda, Elisa (Ayla Monick Henn), tecem reflexões sobre a sua condição de pessoa com deficiência. Essa escolha em relação à montagem mostra-se um acerto dos diretores, pois lhes permite dar ao filme uma dimensão autoconsciente, de maior seriedade discursiva, sem esmaecer o peso dramático das cenas envolvendo Fred, o avô e a tia.
Como nem tudo é perfeito quando estamos apenas iniciando trajetória em uma atividade artística, há de se destacar um segmento do roteiro que acaba indo sutilmente na contramão do espírito inclusivo proposto pelo curta. Enquanto conversa com Elisa, Fred em certo momento diz: “Meu avô dizia que o cinema era bom quando era em silêncio.” Em seguida, sua amiga complementa: “Concordo. Só não precisa ser em preto e branco.” Fred conclui, então, o diálogo: “O mundo pode ser em silêncio, mas não sem cores.” Ainda que sugerida como poética, livre de implicações discursivas, essa frase pode ser problematizada se considerarmos a realidade de pessoas cegas, particularmente daquelas que não enxergam desde a nascença, cuja compreensão sobre as cores é essencialmente abstrata, não sendo derivada de um estímulo visual captado pelas retinas. Ao deduzir que a vivência somente é plena por intermédio da relação sensorial dos indivíduos com as cores, Fred inconscientemente reduz a validade do mundo tal como percebido por pessoas que lidam com a cegueira total.
Por fim, de modo extrafílmico, vale salientar que Procura-se Ator é uma produção que nasce dentro do projeto CineArte – Núcleo de Formação Audiovisual, que visa formar novos talentos e democratizar o acesso à cultura. Realizado nos municípios de Tramandaí e Imbé, situados no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, o curta foi desenvolvido ficcionalmente a partir da experiência real de um aluno PCD que manifestou o desejo de atuar.

Título original: Procura-se Ator
Direção: Airton Tomazzoni e Laura Lautert
Roteiro: Airton Tomazzoni
Produção: Território Diverso, Pomar Poético e NIDI
Elenco: Jeferson Gabriel Camargo Donatti Ferreira, Ayla Monick Henn, Oscar de Lima, Rita de Cássia Schell Réus
Fotografia: Marcelo Cabrera e Marcus Godoy
Direção de arte: Aline Pöerschke e Eliane Barreto
Som: Claudio Hernandez
Trilha sonora: Cris Correia
Ano de lançamento: 2026
País: Brasil
Duração: 18 minutos
Disponibilidade: Estreia no Festival de Gramado 2026
*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.
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1 comentário em “CRÍTICA – PROCURA-SE ATOR”
Ter participado deste filme tão delicado, ainda com olhar aprendiz, trouxe para mim a feliz oportunidade de vivenciar estes primeiros espaços no audiovisual com um grupo maravilhosamente múltiplo de experiências e condições. A Território Diverso trouxe para o litoral norte gaúcho a possibilidade de um projeto germinal do audiovisual para quem deseja realizar novas obras aqui entre lagoas, céu e mar. Agradeço a cada um da equipe, eu realmente pude ver que cinema é um fazer coletivo! Desejo que ele seja visto por muitas pessoas e que novas oportunidades venham, especialmente pra o Jeferson!