Showgirls: misoginia e moralismo na sinopse do Amazon Prime Video

Por Leonardo Lima*

Com certa frequência, visito os streamings dos quais sou assinante para saber as novidades do catálogo. Para minha surpresa, ao dar uma espiadinha no Prime Video, percebo que o clássico cult Showgirls, do mestre holandês Paul Verhoeven, estava novamente disponível no serviço controlado pela gigante estadunidense Amazon. A princípio, esse retorno não poderia ter me deixado mais feliz, uma vez que se tratava de uma boa oportunidade para rever um dos meus filmes favoritos da década de 1990.

Contudo, ao atentar para a sinopse em português do longa, o sorriso estampado no rosto logo se transformara em choque e indignação, haja vista o tom fortemente moralista e misógino daquilo que eu acabara de ler:

Uma jovem vagabunda misteriosa que se autodenomina Nomi Malone pega carona até Las Vegas, onde consegue trabalho como dançarina de strip-tease e começa a lutar para chegar ao topo entre as dançarinas de Las Vegas.

De imediato, de tão estapafúrdio que era aquele conteúdo, neguei-me a acreditar. Torcendo para que fosse um delírio pessoal ou um erro temporário da plataforma, fechei o Prime Video. Ao ingressar mais uma vez, no entanto, tive a confirmação de algo que, na minha humilde opinião como cidadão, cinéfilo e crítico e de cinema, trata-se de um dos maiores absurdos já cometidos na divulgação de uma obra cinematográfica no Brasil. Observe com atenção a imagem de capa desta matéria e comprove o que lhes digo.

Antes de tecer algumas breves considerações a respeito do(s) porquê(s) que explica(m) a ocorrência desse case de vergonha, convém expor, de maneira objetiva e científica, como a sinopse de Showgirls é apresentada em outros contextos dentro e fora do país, exercício este que evidenciará, inapelavelmente, o quão grotesco é esse episódio.

Ao consultar a página oficial em inglês do Internet Movie Database (IMDb), site que é a maior referência para buscar sobre obras audiovisuais, assim consta a sinopse do filme de Verhoeven:

A mysterious young drifter who calls herself Nomi Malone hitches a ride to Las Vegas, where she finds work as a stripper and sets about clawing her way to the top of the Vegas showgirls.

Em tradução livre, o trecho acima ficaria assim:

Uma jovem andarilha misteriosa que se apresenta como Nomi Malone pega carona até Las Vegas, onde encontra trabalho como stripper e começa a lutar para chegar ao topo do mundo das showgirls de Vegas.

Por sua vez, a Mubi, outra plataforma global de streaming em que o público brasileiro pode assistir a Showgirls, a sinopse já consta traduzida para o português, deste modo:

A jovem Nomi, que chegou a Las Vegas para dançar, está lutando com unhas e dentes para se tornar a maior dançarina da cidade.

Como se vê, a sinopse do mesmo filme assume tons bastante diferentes em termos da semântica de seus enunciados envolvendo questões relativas à moralidade da práxis feminina na sociedade. Por um lado, IMDb e Mubi apresentam Showgirls com sobriedade discursiva e o devido respeito à condição de sua protagonista na narrativa. No caso da Mubi, inclusive, há uma espécie de elogio ao protagonismo de Nomi Malone (Elizabeth Berkley) no roteiro escrito por Joe Eszterhas (Instinto Selvagem e Flashdance).

Por outro, de modo inequívoco, o que vemos no Prime Video é um discurso que reforça duplamente um lócus degradante de Nomi na sociedade. Primeiramente, a sinopse vende o filme a partir da perspectiva como ela é vista pelos homens (e por mulheres) ao longo da narrativa, devido sua atuação como stripper. Em segundo lugar, ao expor Nomi como uma jovem vagabunda, o texto acaba por trazer justamente um dos fatores que levaram o longa a ser um fracasso retumbante junto à crítica e ao público – essa recepção negativa em parte estava atrelada à ideia de que o filme era um drama erótico de baixíssima qualidade, quase pornográfico. Face a essa concepção problemática (e errônea) construída à época de seu lançamento, em 1995, não espanta, portanto, o fato de Showgirls não raramente ter sido exibido, no Brasil, imediatamente antes do Cine Band Privé, programa dedicado a obras de erotismo softcore que passava na TV Bandeirantes, nas madrugadas de sábado para o domingo. 

A essa altura, você, leitor(a), talvez esteja se perguntando como a Amazon permitiu que uma sinopse tão ultrajante estivesse à disposição de seus clientes. Não sou especialista no assunto, mas, até onde sei, filmes do catálogo do Prime Video têm suas sinopses traduzidas por meio do serviço prestado por empresas de pós-produção audiovisual, focadas em adaptar filmes, séries, jogos e vídeos para diferentes mercados e culturas. Essas empresas contratadas pela Amazon utilizam uma mistura de elementos humanos responsáveis por uma tradução especializada (com vistas à adaptação cultural e de contexto) e Inteligência Artificial (IA) em suas rotinas de trabalho. Supostamente, esse conteúdo é então revisado por algum(a) especialista.

Diante do caso Showgirls no Prime Video, é possível chegarmos a duas conclusões, ambas igualmente desprezíveis (e deprimentes):

a) o processo de checagem da tradução idiomática desses produtos culturais está sendo falho ao extremo – o que desperta o temor de estar sendo realizada, em escala integral, a delegação dessa complexa função para os chamados agentes de IA, que são sistemas de software avançados que utilizam inteligência artificial para planejar, tomar decisões e executar tarefas complexas de forma autônoma;

b) caso a hipótese acima esteja correta, e os padrões de revisão humana dos textos mantenham-se em conformidade procedimental, o emprego do termo vagabunda implica numa contaminação desse processo de tradução pela cultura misógina própria à machosfera, responsável pela disseminação do chamado discurso red pill na sociedade contemporânea, particularmente entre homens pertencentes às gerações Y (millenials) e Z. Estariam alguns funcionários agindo deliberadamente para impor sua visão de mundo machista, por meio de minúcias quase sempre não percebidas pelo público que consome streamings? Seria este um movimento patrocinado pelas próprias empresas, chefiadas por homens majoritariamente conservadores adeptos do ideário da extrema-direita?

Se uma descaracterização discursiva dessa ordem é feita na sinopse de um filme, texto este que costuma conduzir nossas escolhas quanto ao que iremos assistir nos streamings, não seria o caso de passarmos a prestar atenção, também, aos diálogos entre personagens no âmago das obras cinematográficas, no sentido de verificar outras possíveis deturpações na tradução?

Deixo-lhes essas provocações para reflexão!

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e LGBTQIAPN+, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

****

DEIXE SEU COMENTÁRIO SOBRE O TEXTO ABAIXO.

PARTICIPE DE CONVERSAS SOBRE CINEMA E CULTURA NO NOSSO GRUPO DO WHATSAPP (Clique aqui)

SEGUE A GENTE NO INSTAGRAM

Quer escrever para o TemQueVer? Entre em contato conosco através do chat de nossas redes sociais (Instagram e Facebook) ou pelo e-mail temquevercinema@gmail.com

Comente

Deixe um comentário