CRÍTICA – MATO SECO EM CHAMAS

Docuficção distópica na periferia da capital nacional

Por Leonardo Lima

Nota: 9,0

Filiado ao chamado Novíssimo Cinema Brasileiro – fica a recomendação de leitura do artigo “O ‘Novíssimo Cinema Brasileiro’: sinais de uma renovação“, do crítico de cinema e professor Marcelo Ikeda –, Mato Seco em Chamas facilmente pode ser considerado um dos melhores e mais consistentes representantes da atual cena do cinema nacional, de contornos não tão precisos, mas certamente perceptível a partir de seu espraiado e plural horizonte temático, estético e geográfico.

Dirigido pelo brasiliense Adirley Queirós e pela portuguesa Joana Pimenta, o longa é um vigoroso exercício de criatividade, não apenas pela natureza osmótica de sua mise-en-scène, hibridamente estruturada na fronteira entre o documental e o ficcional, mas, também, pela maneira como se apropria de elementos próprios à sintaxe cinematográfica do western e da sci-fi distópica com o intuito de ressignificá-los à luz de uma realidade particularmente brasileira.

Como cineasta, Adirley sempre demonstrou seu encantamento crítico por Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal (DF) que moldou sua história de vida desde criança. Em Mato Seco em Chamas, o palco da narrativa é a localidade do Sol Nascente, o segundo maior aglomerado populacional periférico do Brasil. Esse contexto não poderia ser mais perfeito aos propósitos do filme, uma vez que a comunidade possui características que denotam, com expressividade, o déficit de presença do Estado e, ao mesmo tempo, a capacidade de os indivíduos se organizarem de modo a resistir e existir fazendo valer regras e padrões de convivência bastante complexos e peculiares, não raro paradoxais.

Nesse microverso fílmico do Sol Nascente, em que a lei vigente é difusa, mas não menos sentida, observa-se justamente uma representação simbólica do Brasil contemporâneo em toda a sua singularidade social de ambiguidades e contradições, na qual violência, fé, esperança, jeitinho, lazer e frustração são vértices de uma mesma realidade. Muito da força do longa se deve à perspicácia do roteiro em apontar tais aspectos, rejeitando uma abordagem meramente ilustrativa ou, o que seria pior, panfletária, ainda que a política seja uma dimensão sua constante – diria que apenas duas cenas causam incômodo quanto à sua presença, pois extrapolam desnecessariamente para uma escala nacional a discussão até então em curso, o que enfraquece um pouco a experiência de Mato Seco em Chamas enquanto distopia do tempo presente.

Absurdamente sensível e genial a decisão feita pela direção quanto a recorrer a atores não profissionais para compor o elenco, tendo destaque, em especial, o núcleo de mulheres – Joana Darc Furtado, Andreia Vieira e Léa Alves, todas ex-detentas da Colmeia, prisão feminina de Brasília – que lideram a gangue responsável por explorar clandestinamente o oleoduto cravado no subsolo e refinar o petróleo retirado dele, com o intuito de usá-lo como base de sustentação do poder paralelo no Sol Nascente. Por meio dos relatos dessas mulheres evocando suas vivências dentro e fora da prisão, filmados em sua maioria a partir de planos longos e espontâneos, Adirley e Joana transformam a memória não somente em mecanismo de resiliência individual e coletiva, mas, igualmente, em instância que permite ao espectador se conectar com elas e operar a desconstrução de estereótipos e percepções acerca de pessoas que cometeram alguma prática criminosa e tiveram cerceada sua liberdade.

Não é exagero afirmar que Mato Seco em Chamas se constitui como uma das mais impactantes e gratificantes obras do cinema brasileiro nos últimos 20 anos. A força de seus diálogos e imagens, bem como a maneira como isso é articulado do ponto de vista da linguagem cinematográfica, acabam sendo fundamentais para fazer dessa ficção de alma documental uma releitura inventiva acerca do nosso país nos dias atuais. Mais que inspiração para o filme, Mad Max talvez nos lembre que o Brasil atual em alguma medida já é distópico – na verdade, uma distopia que, de tão insana em sua realidade, nunca antes fora imaginada por alguém.

 

Título original: Mato Seco em Chamas

Direção: Adirley Queirós e Joana Pimenta

Ano de lançamento: 2022

País: Brasil

Duração: 153 minutos

Disponibilidade: Claro TV+

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

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