Xica da Silva: a sátira carnavalizadora de Cacá Diegues
Por Leonardo Lima*
Nota: 6,0
Clássico do cinema brasileiro, Xica da Silva retorna às salas de exibição no quinquagésimo aniversário de seu lançamento; contudo, o contexto social e cultural dos dias atuais mostra-se bastante distinto daquele no qual o diretor Carlos Diegues (o Cacá Diegues) trouxe sua obra ao mundo. Em 1976, o Brasil, em que pese os primeiros sinais de abertura política dados no governo Ernesto Geisel, ainda vivia sob a égide da ditadura militar. Por sua vez, na esfera cinematográfica, a ressaca do Cinema Novo ainda era sentida por todos que produziam filmes no país.
Assim, a recepção inicial a Xica da Silva foi marcada tanto pela defesa do tom mais satírico e irreverente do longa-metragem, concebido como um ato de resistência aos militares no poder, quanto pelas críticas ao suposto caráter excessivamente alegórico da narrativa. Esta acusação chega a ser inusitada, uma vez que Diegues propõe, aqui, uma mise-en-scène assumidamente popular e burlesca, de espírito carnavalizador, algo acentuado pelas cenas de nudez frontal feminina, as quais têm sua importância na repercussão junto ao público e na bilheteria de 3,1 milhões de ingressos vendidos – vale lembrar que, à época, as pornochanchadas começavam a deslanchar, e em pouco tempo iriam se constituir num dos pilares da produção audiovisual brasileira.
Hoje, no entanto, quando se comemora os cinquenta anos deste clássico, forjado entre as estacas da crítica de ordem classista e étnico-racial e as da reprodução (consciente ou não) de estereótipos fetichistas, quais sentimentos são suscitados pela obra? Uma mirada contemporânea provavelmente irá encarar de maneira mais assertiva e contundente o roteiro escrito por Cacá Diegues e Antonio Callado, reconhecendo o seu pioneirismo ao trazer como protagonista uma mulher negra em posição de poder frente à sociedade de seu tempo, mas sabendo, também, que alguns dos momentos mais icônicos do filme reforçam um certo imaginário que associa o negro ao exótico e à hipersexualidade. Esses são aspectos que, embora não totalmente ausentes nas discussões travadas nos anos 1970, ganham notável centralidade à luz da compreensão hodierna, atravessada pelas questões de gênero, raça/etnia e classe social, marcadores sociais que encontram sustentação nas contribuições postas tanto pelo pós-estruturalismo como pelo pós-marxismo.
Personagem real da história de Minas Gerais no século XVIII, Francisca “Chica” da Silva de Oliveira seria reconhecida pela historiografia a partir da segunda metade do século XIX, quando Joaquim Felício dos Santos publicou Memórias do Distrito Diamantino da Comarca do Serro Frio, trazendo à tona a existência da ex-escravizada. Mas é a Cacá Diegues que ela deve a popularização de seu nome, que recebe um X no lugar do CH e se transforma na famosa Xica da Silva, “imperatriz do [Arraial do] Tijuco, a dona de Diamantina”, entoada por Jorge Ben em canção gravada especialmente para integrar a trilha sonora do filme.

Ao transformar Chica em Xica, entregando à atriz Zezé Motta a missão de encarnar a mulher que ousou seduzir o contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira, vivido por Walmor Chagas, o diretor estabeleceria os contornos necessários à construção do mito. Ao sexualizá-la de maneira indiscutivelmente pouco ou nada condizente com os fatos históricos, Xica deixa de ser a mulher de carne e osso que construiu uma relação afetivo-amorosa a qual resultou no nascimento de 13 filhos, todos reconhecidos pelo pai – um ato incomum naquele período. A ficção fílmica acaba por reduzir, neste caso, sua ascensão social unicamente ao emprego do próprio corpo como moeda de troca para mover o mundo a seu favor, intenção essa expressa por meio dos sorrisos maliciosos de Xica quando deseja obter algo dos homens ao seu redor. Embora pertinente à narrativa sob uma análise interna da mesma, essa dimensão do longa é difícil de ser digerida por uma parcela significativa do público na atualidade.
Em termos formais, os planos gerais são eficazes em criar uma atmosfera digamos colonial, dando às cenas em espaços abertos uma natureza imagética próxima a das telas do pintor Victor Meirelles (A Primeira Missa no Brasil). Para além da beleza estética, essa aura histórica transmite a sensação de se estar assistindo a uma trama ambientada dois séculos atrás. Por sua vez, a fotografia modula bem as diferentes fases de Xica na história – inicialmente, quando ainda está na condição de escravizada, percebe-se opacidade e a preferência por tons pastéis esfumaçados; à medida em que a personagem muda de patamar social, obtendo riqueza, poder e status, cores mais vibrantes e de maior saturação passam a predominar.
Ao recorrer ao riso debochado e libertador, à inversão de papéis sociais e à sátira para subverter a rigidez hierárquica do poder colonial, da escravidão e do patriarcado no Brasil do século XVIII, a encenação levada a efeito por Cacá Diegues mostra-se um exemplo perfeito de aplicação fílmica do conceito de carnavalização proposto pelo teórico russo Mikhail Bakhtin. Obviamente, essa estética da inversão, que reposiciona o oprimido como opressor no seio da narrativa de Xica da Silva, cobra o seu preço (elevado, por sinal) ao lidar com uma ideia de representatividade negra sustentada de maneira equivocada, na qual um corpo feminino sensual ao extremo é validado como estratégia astuciosa de crítica ao poder dominante das elites brancas.
Dito isso, convém lembrar a importância de a crítica de cinema estar atenta à historicidade da narrativa cinematográfica, situando-a frente ao seu tempo de produção social, bem como à necessidade de uma obra do passado ser igualmente vista a partir dos novos referenciais analíticos à disposição de quem a assiste na contemporaneidade. Nesse sentido, um filme como Xica da Silva carrega consigo elementos que o colocam no centro de disputas entre concepções distintas de mundo: de um lado, quem o concebe sob uma ótica libertadora; do outro, aqueles que ressaltam o seu papel na reprodução de imagens que pouco ou nada colaboram para modificar determinados estereótipos a respeito da representação do negro – em especial a mulher negra – no cinema e nas artes em geral no Brasil.

Título original: Xica da Silva
Direção: Carlos Diegues
Ano de lançamento: 1976
País: Brasil
Duração: 117 minutos
Disponibilidade: Cinemas
*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.
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