CRÍTICA – DESTERRO

Desterro: uma chama de ardor estranhamente frio

Por Leonardo Lima*

Nota: 7,0

Desterro: ação ou resultado de sair do próprio domicílio ou do país de origem, por imposição legal ou voluntária. Extraída do dicionário, essa definição dá uma ideia inicial dos caminhos narrativos percorridos pelo roteiro de Desterro, filme de estreia da documentarista Maria Clara Escobar na direção de longas-metragens ficcionais. Mas, em termos práticos, qual o significado e as implicações disso, ainda mais quando, no centro do palco da vida, há uma mulher, para quem o fardo costuma pesar mais?

Em Desterro, Escobar empreende uma jornada cinematográfica marcada pela infertilidade do cotidiano de seus protagonistas, o casal Laura (Carla Kinzo) e Israel (Otto Jr.). Apesar dos vários anos vividos juntos e de terem tido um filho, ambos se encontram absortos no vazio de seus mundos pessoais, em completo estado blasé frente àquilo ao seu redor. Todavia, o pêndulo das expectativas e obrigações sociais é colocado em desfavor de Laura, fazendo com que o seu desconforto existencial a leve a uma guinada brusca e errante em busca de um mundo fértil de outras necessidades e verdades, ainda que elas se apresentem eivadas de arrependimentos, ressentimentos e/ou hesitações.

Ao tecer o fio narrativo de seu coming of age intimista e melancólico, Maria Clara Escobar acertadamente recorre a escolhas formais não óbvias, mais experimentais, as quais trazem consigo uma chama de ardor estranhamente frio, capaz de compartilhar com o público a dimensão do mal-estar sentido por Laura, sem horizontes imediatos e marcada pela incomunicabilidade com Israel e até mesmo com seus pais e irmãs. Para isso, os planos evidenciam os personagens realizando tarefas banais em silêncio, à parte de qualquer interação social efetiva, ou, então, emocionalmente à distância, ainda que fisicamente próximos um do outro, como se um fosso simbólico (e ao mesmo tempo visual) os separassem.

Uma estratégia muito bem utilizada pela diretora, sobretudo no primeiro ato, é ser exaustiva quanto à encenação de certas situações, como um café da manhã na cozinha, de modo a criar no espectador a sensação de déjà vu, reforçando, assim, a ideia de uma rotina opressora e deprimente vivenciada pela protagonista. Importante também se mostra a habilidade de contemplar o não dito e o não visível às cenas, não raro estabelecendo um objeto como ponto focal da narrativa. Deste modo, esse deslocamento em relação à gramática do filme provoca um deslocamento no qual a realidade não parece tão real assim, situando-a em uma zona de permanente estranhamento e artificialidade humana.

Grande diferença faz o trabalho de montagem em Desterro, responsável por ressignificar os acontecimentos seguintes a uma tragédia envolvendo Laura. Ao romper com a convencionalidade da narrativa, Maria Clara Escobar dá ênfase não às consequências, mas às causas que levaram a personagem àquela situação extrema; do ponto de vista do entendimento das motivações de Laura, isso propicia uma visão completamente distinta, mais humana e menos culpabilizadora acerca dela, bem diferente do que veríamos caso a lógica espaço-temporal houvesse sido seguida à risca.

Contudo, essa ruptura não fica restrita aos aspectos da montagem, e acaba atingindo a própria sintaxe cinematográfica do filme, que em parte abandona o ficcional em seu estado puro para flertar com a docuficção. Mesmo isso não constituindo em si um problema, a impressão deixada é a de que o exercício experimental proposto seja de ordem tão radical que acaba por fragmentar e fragilizar a experiência do público com a obra, que talvez a veja como seccionada em duas partes que não dialogam com a devida organicidade e fluidez narrativa. A despeito disso, assistir a Desterro se constitui como uma experiência cinematográfica a qual, dificilmente, passará incólume ao espectador, que precisará lidar, talvez, com o seu próprio eu frente ao mundo.

Título original: Desterro

Direção: Maria Clara Escobar

Ano de lançamento: 2020

País: Brasil

Duração: 122 minutos

Disponibilidade: Filmicca

 

*Recifense, 41 anos, sociólogo. Antirracista, aliado do feminismo e das causas indígena e queer, torcedor do Santa Cruz. Crítico de cinema, mantém no Instagram a página Cine Mulholland. Coeditor-chefe do site TemQueVer, membro votante da Tela Plus Film Academy e integrante do site Club do Filme e do Podcast Cinema em Movimento.

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