O REALISMO SOCIAL EM DOCINHO DA AMÉRICA

A OUTRA FACE DOS ESTADOS UNIDOS

Por Sthefaniy Henriques*

Em 1962, o cientista político Michael Harrington publicou um livro chamado ‘‘A Outra América: Pobreza nos Estados Unidos’’, talvez o mais conhecido feito de Harrington em vida. O título do livro já é autoexplicativo, em um período da história onde tudo aparentava estar pleno para os Estados Unidos (pleno emprego, economia plena, pleno poder aquisitivo da classe-média, pleno poder de acesso dos pobres ao Bem-Estar-Social) e o sonho americano era possível para todos, Harrington apresentará um trabalho que desmascara o mito da América Afluente, apontando a existência de 50 milhões de pobres no país, estes que estavam invisíveis diante das câmeras da sociedade pelo o que Harrington vai chamar de nova segregação da pobreza. Na sociedade afluente, os pobres vão estar isolados, afastados dos grandes centros e concentrados em seus guetos, quando fora dos guetos, alguns meios de consumo da crescente industrialização e da produção em massa (como roupas) mascaram a pobreza.

É possível apontar que quando Harrington escreveu A Outra América, a globalização ainda estava em um momento tímido, o mundo ainda era grande demais e o retrato hollywoodiano dos Estados Unidos para o exterior era de um país rico, luxuoso e de possível ascensão social para todos. Vimos isso em Cantando na Chuva (1952), A Felicidade Não se Compra (1946) e em outras diversas produções da época de ouro hollywoodiana.

Mesmo nos estágios avançados de globalização que acompanhamos atualmente (o mundo está pequeno demais ao ponto de exploramos o espaço), o mito da Sociedade Afluente que Harrington ainda nos anos 60 demonstrou como não totalizante e próxima da diminuição com a aproximação de novas porcentagens de pobreza (ele estava corretíssimo), ainda persiste. A grande influência estadunidense no mundo e a própria projeção de um país rico ainda sustentam o sonho americano. Há algo que ainda encanta na América, a América parece oferecer possibilidades de realização de sonhos ou metas. A alegria; um novo estilo de vida; a esperança está na América.

O cinema de Andrea Arnold.

Docinho da América é o primeiro filme estadunidense da diretora britânica Andrea Arnold. Antes da produção que marca a entrada da diretora no mercado norte-americano, Arnold já possuía uma carreira impecável no cinema britânico, com obras imersivas que ressaltam a marca do cinema da diretora: a realidade drástica da vida real em contraste com toda beleza que o cinema pode oferecer.

Eu particularmente gosto de dizer que os filmes de Andrea Arnold funcionam como um grande soco, mas a violência das imagens endereçadas não é capaz de nos machucar ou nos incomodar profundamente, a experiência, por mais sutilmente atormentadora que possar ser, nunca será taxada como ruim ou traumatizante. A diretora mostra o cru de todas as situações que busca abordar, mas ainda há um requinte, um charme e um tom genuíno em suas obras. Milk (1998) e Wasp (2003), vencedor do Oscar de curta-metragem, definem e melhor exemplificam o que vem a ser o cinema de Andrea Arnold, o realismo social que é uma presença registrada em todas as produções da diretora.

Quando o cinema americano não interfere na criação.

São poucos os diretores de fora do eixo norte-americano que conseguem ter seu primeiro filme sem inferência dos produtores. Quando se trata da primeira produção em solo estadunidense, liberdade criativa e de produção é quase uma palavra proibida. Com Docinho da América, Arnold consegue uma estreia que cheira a sua essência, onde, em vários momentos, é possível até mesmo traçar um paralelo com alguma outra produção britânica da diretora. Talvez o segredo de uma estreia com forte tom do cinema de Arnold possa ser o fato do filme ser uma produção de um estúdio independente, ou seja, de fora do ciclo predatório e dominante de Hollywood. Desta forma, temos quase três horas de uma road-trip por uma nação fundada na desigualdade social.

Arnold gosta de unir atores experientes, com não atores e atores estreantes. Foi assim que o elenco acabou sendo composto por Shia LeBouuf (Jake), Riley Keough (Krystal), Sasha Lane pela primeira vez em um longa-metragem interpretando Star, além jovens aleatórios que estavam dispostos a participar da produção.  O filme foi inspirado por um artigo do jornal Times chamado ‘‘Mag Crews’’, sobre um grupo de jovens que viajavam pelos Estados Unidos vendendo assinaturas de revistas, a diretora logo associou com um momento de sua vida onde decidiu viajar sem destino por 10 dias e, assim como em sua experiência, gravou Docinho da América em ordem cronológica, decidindo durante as gravações qual seria a próxima rota e escondendo tal escolha de seu elenco.

Sem deixar de lado os elementos que fizeram sua carreira, Arnold centra como protagonista Star (assim como Estrela), uma jovem miserável e infeliz, presa em um relacionamento com um homem bêbado e violento que aparenta ter o dobro de sua idade. Como se não pudesse piorar, Star é responsável pelos seus dois enteados pequenos e passa o dia com eles procurando comida nos lixões da cidade de Muskogee, no Oklahoma. A primeira cena do filme, aliás, apresenta Star dessa forma, removendo um pedaço de frango embalado a vácuo banhado a sangue (aquele mesmo sangue que podemos notar quando o frango está descongelando) em uma caçamba de lixo.

A pobreza e a desilusão que a grande Hollywood esconde, abraçada por Docinho da América.

Em anos de cinefilia, a casa de Star é uma das ambientações que mais conseguiram me incomodar e não chegamos a ficar nela por mais de 5 minutos. Como se não bastasse sabermos que a garota consegue a refeição diária de sua família no lixo, Arnold opta por nos deixar em sua vida e parte da sua casa representa isso. Se o quarto de seus enteados, com paredes rabiscadas e tonalidades escuras de sujeira incomodam, a cozinha é mais eficiente que qualquer filme em 4D. Nela somos capazes sentir o cheiro do frango descongelado, de seu sangue no chão amarelado, do enorme cachorro sujo cheirando o alimento, do marido bêbado adentrando o recinto.

Esse ambiento sujo não é algo que vemos em Era Uma Vez um Sonho (2020) filme da produtora Imagine Entertainment distribuído pelo Netflix que investe na meritocracia como resolução para o fim do clico de pobreza que permeia 3 gerações. A ambientação de Era Uma Vez um Sonho não corresponde as dificuldades financeiras que a família sofria. Da mesma forma que Era Uma Vez um Sonho, Um Bairro de Nova York (2021), uma super produção com distribuição da Warner Bros, romantiza a pobreza e oferece soluções simples para supera-la. Sabendo que sua geladeira está quebrada e provavelmente seus alimentos conditos nela vão estragar, você faria uma música positiva e contagiante sobre o quão ruim é perder sua refeição?

Star não canta, pelo contrário, ela se cansa da miséria e resolve deixar tudo para trás, devolve os filhos para a mãe biológica (que não quer as crianças) e aceita o emprego oferecido por Jake. Star vai trabalhar por horas sem questionar para onde vai parte de seu salário, sem perguntar como sua chefe consegue adquirir produtos que custam caro. Star não considera outra possibilidade de emprego, afinal, pela primeira vez, Star está sendo remunerada, mesmo que haja exploração, mesmo que aconteça maus tratos. E, Assim como Star, nenhum dos outros jovens agem de maneira diferente, eles são vítimas da pobreza, da miséria e não conhecem nenhum outro individuo de seu núcleo que conseguiu ‘‘vencer na vida’’, que conquistou seu sonho americano.

Isso não é muito diferente do que Harrington afirma ainda nos anos 60, ele considera que os jovens pobres são os mais visíveis, afinal, por vezes, eles podem surgir em ruas tranquilas da classe média, mas costumam ficar isolados a maior parte da vida em sua vizinhança. Tal constatação é muito significativa quando vemos os critérios de Jake para recrutamento, ele sempre está em busca de pobres jovens que buscam qualquer oportunidade que possa mudar a sua realidade ou fazer com que escapem dela.

A afirmativa de Harrington sobre as ruas tranquilas de classe média referida no ultimo parágrafo merece um pouco de atenção, afinal, é para esses bairros que os vendedores de revistas vão transitar nos primeiros momentos. No primeiro bairro, vamos encontrar famílias como a de Um Sonho Possível (2009), com valores tradicionais e filantropas. Jake e os outros vendedores entendem que, para conseguir dinheiro dessas pessoas, é preciso contar uma história drástica envolvendo guerras (como Afeganistão) ou que evoque qualquer sentimento patriota ou filantropo. É necessário vender o que eles querem ouvir para que possam se sentir melhores pessoas e cidadãos.

A família de margarina ganha, em pouco minutos e em sutilezas, características como intolerância, preconceito e desdém, ao ponto de uma risada ser ouvida quando Jake, visualmente pobre, diz que seu sonho é ir para uma faculdade. Temos, nesse primeiro bairro rico, um grande tapinha nas costas de Andrea Arnold, um incentivo para entender como a discrepância social (não vista no grande cinema) é fomentada pela visão dos ricos em enxergarem os pobres como fracassados individuais e impossibilitados de saírem do lugar. Se você não tem sua independência financeira com 13 anos, já é destinado a pobreza eterna.

No segundo bairro, com grandes proprietários de gado, dignos caubóis, a situação não muda drasticamente. Se antes observamos o retrato da família americana como verdadeiramente problemática, encontrarmos nos velhos senhores apreciadores de churrasco o retrato dos cidadãos homens de bem e seus jogos sádicos com jovens miseráveis. Para eles se torna apenas diversão (300 dólares não valem de nada, não fará falta), enquanto para Star aquele dinheiro é uma quantia que ela nunca chegou a ver na vida, ela fará qualquer coisa por ele.

Em um país individualista, quem auxilia os mais pobres? A solidariedade vem da mesma classe social.

Harrington afirmou, há mais de 60 anos, que os pobres se tornaram mais invisíveis diante da sociedade pela falta de caridade. A outra américa se tornou invisível porque ações de bondade com terceiros foram desaparecendo, principalmente a entre os ricos (que assim, poderiam enxergar a pobreza) com os mais pobres.

Após andarmos por regiões ricas com Arnold, estamos na mesma região que começamos, estamos em bairros pobres, mas agora, como visitantes. As graminhas verdes desparecerem, as ruas se tornam esburacadas, as cercas brancas são apenas grades altas e frágeis. Mesmo diante da pobreza, Arnold nos apresenta aquela região como um local mais receptivo, com pessoas dispostas a conversar, mesmo que o auxílio financeiro não fosse possível. É nesse panorama que Star tem um grande sentimento de compreensão daquela realidade.

Star bate na porta de uma família onde crianças são as adultas da casa, mas não, necessariamente, pela falta de um adulto. O pai é, de fato, ausente, mas a mãe é uma viciada em heroína, dispersa de tudo que acontece ao seu redor. Dessa forma, a casa é suja, os filhos mais velhos (com cerca de 9 anos) cuidam de um bebê e deixam estranhos (Star) entrar em sua casa, compartilhando com Star a única bebida que tinham na geladeira, o refrigerante Mountain Dew. Mais tarde, Star retorna para esta mesma casa com leite, algumas bananas, ovos e pães.

Mesmo que nesse momento do filme alguns espectadores possam ficar em dúvida do que venha a seguir, Arnold utiliza-se dessa breve passagem em bairros pobres para além de uma simples demonstração da realidade social do país, da existência de bairros pobres, invisíveis pelo governo, com famílias desajustadas. Esse é o momento que Star desiste do seu sonho tipicamente americano.

Com a desilusão sobre os Estados Unidos, vem o fim da busca pelo sonho americano.

Star, mesmo há quilômetros de casa, encontrou famílias como ou muito similares a dela, encontrou a pobreza, vício, descaso, dificuldades. Com isso, o sonho americano de Star de possuir um trailer próprio e cuidar de três filhos, uma vontade até simples, caiu por terra. Star viu a outra face da américa e sua atitude não foi como a de Christopher em À Procura da Felicidade (2006) ou como Joy em Joy: O Nome do Sucesso (2016), Star não persistiu, afinal, olhando para a pobreza com outra perceptiva (a perceptiva de visitante) e conseguindo assimilar com a sua vivência, ela percebe que o sonho americano já está morto.

Em 2016, ano de lançamento de Docinho da América, de acordo com o Departamento do Censo dos Estados Unidos, ao todo 44 milhões de pessoas viviam abaixo do nível da pobreza, 24 milhões pertencentes ao sexo feminino. Observando os números, é possível afirmar que Star já nasceu em desvantagem, o seu sonho não foi destruído por uma falha individual e sim pela sua desvantagem (que também poderia ser a mesma desvantagem de seus pais e de seus avós). O sonho americano de Star não acabou por uma falha individual, ou 41 milhões de pessoas, assim como ela, também falharam individualmente?

Docinho da América é uma longa e inesquecível viagem pela sempre presente e intensificada derrocada social dos Estados Unidos. Diferente do cinema hollywoodiano, Andrea Arnold, sem pudor, nos deixa expostos ao abismo social em zonas capitalistas e as suas perceptíveis consequências no cotidiano norte-americano. Certamente, o filme é uma produção que coloca em pauta e questiona a imagem que ainda nos é vendida sobre os Estados Unidos.

Disponível no HBOMAX

*Estudante de História pela Universidade Federal Fluminense e crítica de cinema. Por meio da página E O Cinema Levou (@eocinemalevou) no Instagram, discute a relação da História com o Cinema a partir de filmes.

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